quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

::Ready or Not::



Nove e meia da noite em Toronto, 2015 já no Brasil.
O jantar foi costelas de porco, repolho e lentilha. Calcinha amarela que não falha. Banho de sal grosso pra deixar a uruca ir pelo ralo. Alguém dorme a última soneca de 2014. Alguém se emociona com os fogos na Ilha da Magia (quem será?) e deseja estar lá. Eu adoraria morar em Floripa, mas será que é por que não moro lá e se estivesse lá, iria querer estar em outro lugar? Cada lugar que eu estou, me faz ter vontade de estar em outro, isso é um senso de, sei lá, de querer sempre mais ou é simplesmente uma falta de satisfação eterna?
O ano termina e, pronta ou não, aqui vou eu. Eu fiz tudo que precisava, comi carne de porco, lentilha e vesti roupa amarela, posso passar a virada tranquila que nada de errado vai acontecer.
FALOU.
Eu vim morar há quase dez mil quilômetros de distância pra ficar longe de tudo e termino o ano mais próxima de tudo do que nunca. Perto e engessada, porque nada que eu faça vai mudar uma migalha do que acontece e do que já aconteceu. Eu vim pra tão longe com medo que os mais velhos fossem embora, mas o mais novo de todos nos surpreendeu e foi antes do que imaginávamos. No ano de 2014 uma morte na família mostrou um lado ruim de tudo, das pessoas e da vida, e eu ainda não consegui me recuperar do choque de realidade que isso trouxe.
A mesma pessoa de sempre, que fez 55 anos, não fez questão alguma de fazer ninguém feliz e nos fez mais infelizes do que antes. A falta de esperança e a vontade de que tudo fosse diferente é o que dói mais.
Que fosse tão fácil mudar os hábitos quanto mudar a cor do meu cabelo.
Ser melhor sem ser noiada, ser melhor para ser menos exigente. Como? Não funciona.
Hoje eu recebi mais um documento, passo a passo o que eu posso eu conquisto. Chegará o dia em que vou ter um passaporte em inglês? Neste dia, eu quero ir embora daqui. Se demorar muito, eu acho que vou embora antes.
Recebi o documento e quando olhei pra foto, achei que era minha mãe. Mas era eu. Reuni todas as carteirinhas com fotos que tenho desde 2009 e em nenhuma delas era eu. Na primeira, talvez, minha pele estava boa. Meu cabelo parecia bom, eu parecia estar feliz. E eu estava, tirei meu passaporte e fui viajar pra fora pela primeira vez. Em que momento essa felicidade se perdeu, considerando que agora eu moro fora do país? Como eu sempre quis?
Onde está aquela emoção que eu tinha quando pegava o metrô em Berlim ou Madrid e via pessoas com sacolas de mercado e pensava "será que um dia serei eu esta pessoa do metrô e um turista vai me olhar e querer ser eu?" Cadê aquela animação de pegar o tram em Amsterdam ou de comer ovos no café da manhã, enquanto a neve cai la fora e me sinto cidadã do mundo, acreditando estar vivendo tudo que posso e indo atrás do que quero?
Quem é esta pessoa há meses nesse basement, sofrendo com o que não se pode sofrer, em dúvida da sua capacidade, não gostando de nada que olha no espelho e lamentando o que não deu certo como se fosse o último momento da vida em que irá se permitir viver o que está vivendo?
Tem coisas que todo mundo já sabia, inclusive você.
A velha história de chorar pelo leite derramado, ainda pior, com intolerância à lactose, deveria chorar de alegria, de não poder tomar, caiu no chão, ótimo, não era seu. Este leite não podia ser meu, eu não posso tomar leite. E, melhor que isso, eu não quis tomar leite. Eu decidi sozinha, ninguém me obrigou.
Já me dizia meu tio, faça o que fizer, arque com as consequências. Sim, é isso mesmo, é só botar em prática.
Dez da noite, eu ainda preciso secar meu cabelo.
Duas horas e a vida vai mudar, porque quando o relógio mudar, tudo será zerado e uma nova chance me será dada. Aquilo que não estava bom ficará pro ano velho, o ano novo só tem boas resoluções.
Meia noite e eu nascerei denovo, ou pelo menos é nisso em que eu quero acreditar.

na vitrola Miles Davis, Bitches Brew
https://www.youtube.com/watch?v=CNu8V_Dyg1E

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